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'Balanced
scorecard' - uma ferramenta para gestão
A
partir de 1995, o Brasil encontrou-se inserido em um
contexto de estabilização macroeconômica, o que permitiu que
o Estado ampliasse o foco de sua atuação – o problema
central do país já não era o combate à inflação e passou-se
a empreender esforços cada vez mais orientados para a
superação de problemas estruturais como desigualdade social,
pobreza; agressões ao meio ambiente; entre outros.
Entretanto, o Estado mostrava sinais de incapacidade para
resolver problemas básicos – da educação universalizada aos
serviços de saúde; da promoção de emprego e renda ao combate
às mais diversas formas de exclusão social, a máquina
estatal se mostrou insuficiente para combatê-los. Dessa
forma, novos atores surgiram com competências diversas não
para suprir o vácuo deixado pelo Estado, mas para lutar
paralelamente à sua ação (ou não-ação). Estes esforços têm
sido empreendidos não apenas para atender às necessidades
fundamentais das populações historicamente excluídas, mas
principalmente para fazer chegar às instâncias estatais as
demandas, carências e potencialidades destas populações.
Esta atuação se materializa em programas e projetos sociais
simultâneos ao trabalho de proposição e acompanhamento de
políticas públicas.
Nos
últimos dez anos, as organizações da sociedade civil –
caracterizadas principalmente por seu caráter não-lucrativo
e com finalidade social – vêm encontrando os mais diversos
desafios para a continuidade de sua atuação.
Sua
sustentabilidade, grosso modo, está baseada em
financiamentos e apoios de fontes diversas – agências
multilaterais, fundações nacionais e internacionais, fundos
públicos, etc – e a manutenção do fluxo de doações e
financiamento de programas e projetos exige, cada vez mais,
modelos e ferramentas de gestão que devem ser incorporados
ao dia-a-dia das organizações. Uma vez que estas não são
práticas intrínsecas à atuação das organizações da sociedade
civil, o aprendizado e adaptação para sua adoção é um
desafio constante. Algumas ferramentas e metodologias
oriundas do setor privado se mostram eficazes para
implementar o nível de profissionalismo que hoje se exige
das organizações da sociedade civil organizada, facilitando
a elaboração de suas estratégias.
Este
processo de reestruturação das organizações da sociedade
civil também envolve reformulações sob o aspecto jurídico –
e novas formas de relação entre Estado e sociedade civil vêm
sendo consolidadas na forma da lei – a exemplo da Lei
9790/99, fruto de um amplo processo de discussões iniciado
pelo Conselho da Comunidade Solidária conhecido como Marco
Legal do Terceiro Setor.
Ao
lançarmos um olhar para os mercados mundiais percebemos uma
verdadeira transformação de todos os parâmetros de
competição entre as organizações, independentemente de terem
ou não finalidade de lucro.
Na era
da competição, alicerçada no conhecimento, a capacidade das
organizações de desenvolver, estimular e angariar ativos
intangíveis é fator de extrema necessidade e sobrevivência.
Esta reflexão deve ser incorporada também pelas organizações
da sociedade civil como mais um fator de fortalecimento na
busca de sua sustentabilidade. Nesse contexto, observamos
que os princípios que norteavam as avaliações das
organizações eram baseados somente em indicadores
financeiros (ativos tangíveis) e que eram incapazes de
refletir as atividades criadoras que agregam valor e estão
relacionadas com o desempenho dos colaboradores:
criatividade, motivação, comprometimento, competência na
execução de procedimentos gerenciais etc (ativos
intangíveis) das organizações.
No
início da década de 90, Kaplan
e Norton desenvolveram pela primeira vez o Balanced
scorecard - que tinha como principal objetivo criar
soluções relacionadas à mensuração de desempenho nas
organizações.
A
competição fundamentada no conhecimento, na capacidade de as
organizações desenvolverem as competências de seus recursos
humanos, estimulando desta forma os seus ativos intangíveis
é hoje um elemento que define o sucesso ou o fracasso de uma
organização.
No
entanto, em uma análise financeira, os números não
capturavam as variáveis intangíveis, que determinavam os
ativos intangíveis de uma organização, como: as habilidades,
as competências e a motivação dos empregados.
Posteriormente, Kaplan e Norton, 2001 constataram que:
...as empresas adeptas estavam usando o Balanced scorecard
para a solução de um problema muito mais importante do que
mensuração de desempenho na era da informação.
A
questão da qual, francamente, não estávamos conscientes
quando concebemos de início o
balanced scorecard consistia em como implementar novas
estratégias.
Estudos de várias fontes comprovavam que as organizações
enfrentavam grandes dificuldades e muitas vezes fracassavam
na execução da estratégia.
No
entanto, ao contrário da tendência geral, descobrimos que
uma grande proporção das primeiras adeptas do balanced
scorecard implementava com êxito as novas estratégias e
auferira retornos positivos já no período de doze a vinte e
quatro meses.
Percebemos, então, que assistíamos ao surgimento de um novo
modelo organizacional – “a Organização Orientada para a
Estratégia”.
Os
gestores de grandes organizações estavam aplicando o
balanced scorecard para envolver as células de negócios
e os departamentos de serviço, criando assim sinergia entre
as equipes e indivíduos voltados para objetivos centrais - e
não locais - das organizações. Desta forma, as rotinas de
procedimentos gerenciais internos tais como planejamento,
alocação de recursos, orçamento e relatórios ficavam
concentrados na estratégia central da organização e não
apenas em um determinado departamento.
Assim,
...visão, estratégia e recursos fluíam de cima para baixo;
implementação, inovação, feedback e aprendizado refluíam de
baixo para cima, a partir das linhas de frente e da
retaguarda dos escritórios.
Com
esse novo foco, alinhamento e aprendizado, as organizações
exibiam desempenho extraordinário e não-linear.
O todo
realmente se transformava em muito mais do que a soma das
partes.
Kaplan
e Norton definem com bastante clareza os cinco pontos que
fundamentam a condução de organizações direcionadas para
estratégia:
1.
traduzir a estratégia em termos operacionais;
Para
traduzir a estratégia em termos operacionais Kaplan e Norton
criaram uma ferramenta que chamaram de “mapa estratégico”.
Esta
ferramenta oferecia as bases para a construção do
Balanced scorecard e sua utilização como um novo
“sistema gerencial estratégico”.
Neste
contexto, continuam Kaplan e Norton, 2001
...
os mapas de estratégia e os Balanced scorecard cuidam das
deficiências dos sistemas de mensuração dos ativos tangíveis
da era industrial. Os elos na mensuração das relações de
causa e efeito nos mapas de estratégia mostram como os
ativos intangíveis se transformam em resultados –
financeiros - tangíveis. Os sistemas de mensuração
financeira registram os valores contábeis isolados dos
ativos tangíveis – caixa, contas a receber, estoques,
terrenos, instalações e equipamentos.
Os
valores desses tipos de ativos independem em grande parte
dos respectivos proprietários; seus valores decorrem do fato
de estarem embutidos em estratégias coerentes e integradas.
O uso pelo scorecard de indicadores quantitativos, mas não
financeiros – como duração dos ciclos, participação de
mercado, inovação, satisfação e competências – possibilita a
descrição e mensuração do processo de criação de valor, em
vez da simples inferência.
Ao
traduzir a estratégia na arquitetura lógica do mapa
estratégico e do Balanced scorecard, as organizações
criam um ponto de referência comum e compreensível para
todas as unidades e empregados.
2.
alinhar a organização com a estratégia;
Em
geral, a sinergia dos departamentos é o objetivo principal
das empresas que buscam resultados positivos. As empresas
têm em sua estrutura um grande número de departamentos,
células de negócios e áreas especializadas. Cada componente
desta estrutura possui suas próprias estratégias.
Neste
ponto Kaplan e Norton, 2001 destacam
...
para que o desempenho organizacional seja superior à soma
das partes, as estratégias individuais devem ser conectadas
e integradas.
A
corporação define as conexões esperadas para criação da
sinergia e assegura a efetiva ocorrência dessas conexões –
tarefa mais fácil de dizer do que fazer.
Tradicionalmente, as organizações são projetadas em torno de
especialidades funcionais, como finanças, fabricação,
marketing, vendas, engenharia e compras. Cada função tem seu
próprio corpo de conhecimentos, linguagem e cultura.
Daí
surgem silos funcionais que se transformam em grandes
obstáculos à implementação da estratégia, pois a maioria das
organizações enfrenta grandes dificuldades de comunicação e
coordenação entre essas funções especializadas.
No
entanto, as organizações focadas na estratégia rompem essa
barreira. As unidades de negócios e as unidades de serviço
compartilhado se conectam à estratégia por meio de temas e
objetivos comuns que permeiam seus scorecards.
Em
todos os casos, as empresas bem-sucedidas usam os
Balanced scorecards de maneira coordenada em toda a
organização, para garantir que o todo exceda a soma das
partes.
3.
transformar a estratégia em tarefa cotidiana de todos
As
empresas que são fundamentadas em estratégias necessitam que
todos os funcionários tenham bastante clareza sobre a
estratégia adotada e possam desenvolver suas atividades no
dia-a-dia contribuindo para o sucesso da estratégia. Dessa
forma, os gestores das empresas utilizam o Balanced
scorecard como ferramenta poderosa para promover a
comunicação da estratégia nos departamentos e educar a
empresa para a condução da mesma.
Alguns
especialistas em gestão de estratégias acham que a
divulgação ampla da estratégia na empresa pode provocar
vazamento de informações valiosas para empresas
concorrentes. No entanto, alguns gestores de grandes
corporações não pensam assim.
Brian
Baker, da Móbil, se posiciona da seguinte forma:
...
o conhecimento de nossa estratégia de pouco adiantará aos
concorrentes, se não souberem executá-la. Por outro lado,
não temos condições de executar a estratégia se nosso
pessoal desconhecê-la. É um risco que precisamos assumir.
Kaplan
e Norton, 2001 acreditam que as empresas têm capacidade de
orientar seus funcionários sobre os fundamentos do negócio
da empresa.
...
para compreender o scorecard, os empregados precisaram
aprender sobre segmentação dos clientes, custeio variável e
marketing de banco de dados.
Em vez
de presumir que a força de trabalho não conseguiria absorver
essas idéias, as empresas efetuaram um esforço coordenado
para treinar os empregados em todos os níveis da organização
sobre esses componentes estratégicos críticos.
Em
seguida, as empresas infundiram nos níveis mais baixos da
organização os scorecard do nível corporativo e das
unidades de negócio. Em muitos casos, adotaram-se
scorecard individuais para a definição de objetivos
pessoais. A estratégia e o scorecard foram
comunicados de maneira holística. Em vez de transmitir os
objetivos por meio da cadeia de comando, como de costume,
toda a estratégia foi divulgada no estilo top-down
.
As
pessoas e os departamentos nos níveis mais baixos deviam
desenvolver seus próprios objetivos, à luz das prioridades
mais amplas.
O
processo redundou em muitas surpresas agradáveis, à medida
que as pessoas identificavam áreas fora de sua
responsabilidade funcional, onde também eram capazes de
contribuir.
4.
converter a estratégia em processo contínuo
De uma
maneira geral, as empresas, na execução de suas atividades
gerenciais, utilizam o orçamento como ferramenta principal
de trabalho para cumprimento de suas metas. Para fazer um
acompanhamento da execução do orçamento, encontros semanais
ou mensais seriam realizados com foco no que foi realizado
dentro do previsto no orçamento e constatando o que foi
realizado fora do previsto no orçamento.
Neste
último caso, novas formas de conduzir as despesas não
previstas seriam desenvolvidas.
Segundo Kaplan e Norton, 2001:
...
não há nada de errado nesta abordagem em si. A gestão tática
é imprescindível. Mas na maioria das organizações tudo se
resume a isso...
Kaplan
e Norton, 2001 realizaram uma pesquisa que constatou que 85%
do pessoal em nível gerencial passam menos de uma hora/mês
discutindo estratégia.
...não admira que as estratégias não sejam implementadas,
quando as discussões sobre estratégia nem mesmo constam dos
programas e das agendas executivas...
costumam dizer Kaplan e Norton, 2001
Por
outro lado, as empresas que estão focadas em estratégias
implementam um processo de gerenciamento da estratégia
chamado de “processo de loop duplo”. Tal processo
consiste em integrar de forma contínua o gerenciamento de
atividades taticamente importantes para a empresa tais como:
orçamentos financeiros, avaliações mensais e o gerenciamento
estratégico.
Nesse
sentido, a utilização do Balanced scorecard é
importante, pois contribui para as empresas iniciarem um
processo de conexão das estratégias vinculadas à elaboração
orçamentária. As empresas focadas na estratégia, logo irão
perceber que necessitarão de dois tipos de orçamentos:
a)
Orçamento estratégico e,
b)
Orçamento operacional.
Essa
separação é importante para resguardar as iniciativas de
longo prazo das pressões que envolvem as atividades de curto
prazo no que tange a resultados financeiros.
Outro
ponto importante é a realização de reuniões estratégicas
mensais. Essa prática será fundamental para o monitoramento
na condução das estratégias. Não diferente deste ponto, um
processo de aprendizado e adaptação da estratégia pode ser
fundamental no desenvolvimento e execução do scorecard.
No
entendimento de Kaplan e Norton, 2001
...em vez de esperar pelo ciclo orçamentário do próximo ano,
as prioridades e o scorecard eram atualizadas de imediato.
De
maneira muito semelhante à do navegador que conduz a nau
numa longa jornada, sempre sensível às mudanças dos ventos e
das correntes para a oportuna adaptação do curso, os
executivos das empresas bem-sucedidas utilizam as idéias e o
aprendizado da organização para assegurar a constante
sintonia fina das estratégias. De evento anual isolado, a
estratégia se converteu em processo contínuo.
5.
mobilizar a mudança por meio de uma liderança forte e
eficaz.
A
longa experiência de Kaplan e Norton na implementação do
Balanced scorecard tem demonstrado que o item mais
importante para o sucesso é a percepção de propriedade e
comprometimento incisivo da equipe executiva.
...a estratégia exige mudanças em praticamente todas as
partes da empresa. A estratégia demanda trabalho em equipe
para a coordenação das mudanças. E a implementação da
estratégia requer atenção e foco contínuos nas iniciativas e
na execução das mudanças, em constante cotejo, com os
resultados almejados.
Se
as pessoas no topo não atuarem como líderes vibrantes do
processo, as mudanças não ocorrerão e a estratégia não será
implementada, perdendo-se a oportunidade de desempenho
extraordinário...
Kaplan
e Norton, 2001 insistem que para um programa de Balanced
scorecard obter sucesso é necessário que fique claro
para todos os funcionários da organização que não se trata
de um programa de mensuração, e sim de um programa de
mudanças estruturais.
Para
eles, o início do processo de implementação do programa deve
ser marcado pela mobilização e a criação de estímulos para
todos os envolvidos, de modo a criar um clima harmonioso no
momento do anúncio do programa que provocará mudanças
profundas na estrutura da empresa.
Continuam os autores,
...após a mobilização da organização, o foco se desloca para
governança, com ênfase em abordagens fluidas e baseadas no
trabalho em equipe, como meio de lidar com a natureza não
estruturada da transição para um novo modelo de desempenho.
Por
fim, de maneira gradual ao longo do tempo, desenvolve-se um
novo sistema gerencial – um sistema gerencial estratégico
que institucionaliza os novos valores culturais e as novas
estruturas em novo sistema de gestão.
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