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Dois lobos, em busca de caça, andavam pela montanha quando o
mais jovem, com entusiasmo e sofreguidão, aponta:
-
Veja lá, dezenas de vaquinhas. Se formos rápidos para
surpreendê-las, com sorte conseguiremos duas ou três...
O outro lobo, mais experiente, o conteve:
- Se
analisarmos bem a situação e formos devagar, com prudência e
habilidade conquistaremos todas!
A ação reativa é
responsável por mais de 90% das decisões empresariais. Daí
desperdícios, conflitos e insucessos. Pensa-se pouco,
reage-se, não se proage. O pensamento estratégico é
fundamental às decisões estratégicas. Formulação óbvia?
Certamente, só que pouco observada na prática. Decide-se, e
depois... pensa-se. Aí então surgem as complexidades de um
processo subvertido em sua essência e racionalidade.
Vejamos alguns casos:
· Um empresário recebe uma
proposta tentadora: exclusividade para explorar um segmento
de negócio que envolve tecnologia inédita. Aceita
prontamente, por considerar ser uma oportunidade
irrecusável. Ao tentar implementá-la, depara-se com mil
dificuldades: falta experiência, necessidade de
infra-estrutura complexa e onerosa, triplicação do quadro de
técnicos, seleção de novos gerentes, aquisição de material
importado, treinamento especializado e investimentos maciços
em marketing. E o lento retorno de resultados face a
resistências culturais, devidas à falta do hábito de
consumo. Tudo isso com a agravante de tratar-se de um
produto aleatório não inserido nos objetivos operacionais da
empresa. Solução: passar o negócio a diante, com prejuízo
financeiro, desgaste motivacional dos envolvidos e arranhões
na imagem organizacional.
· Dirigentes do Congresso
reúnem os jornalistas para anunciar transmissões em TV sobre
as atividades parlamentares, com intuito de desfazer o mau
conceito adquirido no noticiário dos jornais. Em meio à
entrevista, um repórter humildemente pergunta:
- Os
senhores vão instalar uma estação de TV, de custo caríssimo,
ou um canal? Neste último caso, só alcançarão a capital do
país.
· Surpreendidos por essas alternativas não
examinadas, a pergunta matou a entrevista coletiva e a
idéia, só implementada 2 anos depois.
· Uma grande
organização empenhou-se em lançar uma revolucionária ração
para gado, um produto de concepção sofisticada que demandou
demorados estudos e experiências de sua área científica.
Foram estruturadas agressivas estratégias de marketing e
vendas. Tudo certo para dar certo, mas tudo deu errado. Qual
a razão? Esqueceu-se do principal: o cliente. Ninguém
consultou-o. Os bois rejeitaram o alimento. Pedidos são
aceitos como ótimos negócios para depois verificar-se que
não há estoque, que há falta de matéria prima no mercado,
que não há mão-de-obra suficiente, que o custo não compensa.
São fenômenos freqüentes na rotina de grandes, médias e
pequenas empresas. Explicam-se pela falta de hábito em
pensar estrategicamente, através de um simples e racional
modelo decisório.
O modelo não exclui a intuição.
Todavia a intuição pode suprir falhas por algum tempo, mas,
sem o exercício de um modelo, que implica
informação (todos os dados relevantes disponíveis),
conhecimento ( capacidade de avaliar e selecionar
alternativas) e compreensão (condições de tornar o
conhecimento aplicável às situações), pode levar uma
organização ao fracasso. Muitos são os empresários que, ao
acreditarem demais em suas "estrelas", em seus sucessos
espetaculares pelas "jogadas de sorte" e "faro nos
negócios", acabaram amargando concordatas e falências. No
entanto a intuição é fundamental ao reforçar a compreensão,
abrindo novas perspectivas, além da informação e do
conhecimento convencional. O conhecimento acadêmico,
paradigmatizado, freqüentemente inibe e mata a intuição.
Na solução de problemas diários, a intuição é freqüentemente
um forte diferencial à qualidade decisória. É a marca dos
autênticos empreendedores.
É importante que se
reforce: com intuição e criatividade pode-se erguer um
império, que não se sustenta se falta o conhecimento. E este
precisa estar em permanente renovação.
Tempo de
mudanças exige um postura inovadora, caso contrário o
obsoletismo torna-se inelutável. A estratégia que deu
certo pode vir a ser a causa maior de fracasso. A euforia
do sucesso, a satisfação com o já realizado e a acomodação
explicam muitas derrotas aparentemente inexplicáveis. As
transformações aceleradas, que caracterizam os cenários
hoje, impõem como exigência a renovação contínua, que
implica decisões estratégicas.
Todavia, não confundir
estratégias, que devem ser permanentemente revistas em
função das mudanças conjunturais, com Estratégia de
Empresa, ou seja, a base sólida de valores e missão. Sem
filosofia empresarial que integre as lideranças do sistema,
mantendo-as comprometidas quanto verdades comuns ,
todo negócio é circunstancial e frágil, embora seja até bem
sucedido momentaneamente.
Habilidade para decidir
As habilidade gerenciais nas discussões em grupo traduzem-se
em:
Colocação clara dos problemas - com o uso
adequado de perguntas. Saber formular perguntas adequadas é
fundamental à composição objetiva do problema. Ênfase
em situações e não em comportamentos individuais - o
importante, no esclarecimento das questões, são os fatos e
não casuísmos que desviam os assuntos para discussões
aleatórias e irrelevantes. Imparcialidade -
posicionar-se com isenção, estimulando e mantendo-se
receptivo a todas as contribuições. Não se pode, todavia,
analisar o processo decisório sob uma perspectiva meramente
racional. Há uma série de condicionantes que facilitam ou
inibem a tomada de decisões. Até agora, levantamos alguns
aspectos facilitadores relevantes. Vejamos algumas variáveis
negativas.
Fatores que inibem as decisões
Vários são os impedimentos que inibem os executantes a
transformarem decisões em realidade. São fatores negativos
para os quais não se tem a conscientização precisa, sendo
descurados na prática diária. Distribuem-se, em geral, por
quatro categorias:
Inibições culturais
Referem-se aos hábitos decorrentes e valores e
costumes próprios ao meio social em que se inserem as
pessoas envolvidas pela decisão. As culturas burocráticas e
paternalistas, por exemplo, são fortes indutores à
acomodação. Assim a cultura da empresa influi positiva (
quando a prática empresarial é estimulante) ou negativamente
(quando a experiência comportamental é contrária). É
preciso reverter o clima negativo (a educação empresarial e
o desenvolvimento das gerências são fatores determinantes)
para que as decisões relevantes sejam implementadas
eficazmente.
Inibições psicológicas A
insegurança psicológica, que se traduz pelo medo de errar,
de cair no ridículo, de perder o poder, de não se expor, são
bloqueios habituais - nem sempre bem reconhecidos - que
revelam um mau relacionamento líder/liderados. O clima
organizacional - aberto ou fechado - é o grande responsável
pelo sucesso ou fracasso das decisões. Quem não participa
não coopera. É comum o dirigente que reúne sua equipe e
fala, fala, fala, demonstrando desagrado ou pouca
consideração às intervenções dos participantes. Já
presenciamos inúmeras reuniões em que os presentes entram
quietos e saem calados, sem que os dirigentes se incomodem
com isso e nem mesmo percebam. Quando os advertia, em geral
respondiam, racionalizando e culpando-os : "Hoje o
desinteresse é grande, a gente tem que prover tudo..."
Inibições emocionais Consistem no bloqueio da razão
por impactos de ordem emocional. Resultam, principalmente,
do relacionamento interpessoal desgastado, pelo conflito ou
pela monotonia, pelo descrença, pelo estado crônico de
frustração. O problema torna-se grave porque as pessoas
tendem a mascarar suas emoções, racionalizando-as em
discussões áridas para justificarem oposições ou
desculparem-se de omissões. Resulta daí o medo de errar.
Quem não decide por medo de errar, em geral finge cooperar
para "ganhar tempo", adia o problema, arranja desculpas e
"esquece" o problema, adotando o princípio de que problema
adiado resolve-se por si mesmo ou então é esquecido. As
conseqüências são pilhas de papéis, estrangulamento nas
comunicações e soluções... tarde demais. Quando pode, usa a
autocracia para mascarar sua insegurança. Outro equívoco
grave é o de confundir decisões rápidas com apressadas,
distorcendo o conceito de atender com presteza pelo de mau
serviço. A decisão impetuosa é manifestação inibitória à
reflexão, falta de hábito de pensar, de racionar, além de
mais uma demonstração de autoritarismo. Toda atitude
autocrática induz à inibição emocional. O medo é
paralisante; que o diga a cobra, que sabe tão bem explorar
esse recurso com suas vítimas.
Inibições
contigenciais Ocorrem por fatores circunstanciais de
maior gravidade, como um sério abalo econômico-social, uma
perda significativa ou, simplesmente, uma medida
administrativa infeliz, que causa frustrações e revolta. O
desânimo, a descrença e o sentimento de que "não vale a
pena" acometem os espíritos diante de uma comoção
decepcionante. Em 1990, quando as empresas sofreram um forte
abalo pelas truculentas medidas governamentais, houve um
verdadeiro "salve-se quem puder" nas organizações. Valores,
antes expressos em formosos discursos, mostraram-se
inconsistentes na sucessão de demissões precipitadas. Como
aceitar delegações nesse clima? Como decidir? A protelação
era a resposta comum, frente à insegurança e à depressão.
Atitudes na Decisão As gerências, em geral, adotam as
seguintes posturas ao decidir:
Imposição da
decisão, onde o método é o autocrático e a motivação é o
medo. Estímulo aos sentimentos de dever e confiança
, tendo como método a persuasão e como motivação a
lealdade. Elogio às virtudes da decisão, em que
são empregados métodos de venda, tendo como motivação ganhos
pessoais. Participação na discussão, embora não na
decisão, onde usa-se o método de consultoria com a
motivação pela participação. Delegação de autoridade
, onde o método é o de esclarecer, responsabilizar e dar
autoridade. Os motivadores são a liberdade decisória, o
autodesenvolvimento e a corresponsabilização.
Habilitação; a pergunta básica é: como habilitar
gerências a resolver problemas? Fundamentalmente:
educar as lideranças da organização a desenvolverem
modelos decisórios adequados;
zelar pela cultura e pela filosofia da empresa,
tornando seus valores conhecidos e reconhecidos, ou seja,
respeitados e praticados; e estabelecer clima de
participação, do qual resulta a gerência participativa,
cujo exercício reforça o sentido autêntico da democracia na
organização: a efetiva prática do trabalho em equipe e da
delegação.
Diretrizes Problemas existem
sempre. Decisões são, portanto, ações indeclináveis. A
diretriz correta importa, assim, em prevenir problemas -
treinar a percepção gerencial, pois grande número de
situações críticas não precisariam acontecer, atacar o
problema na hora certa - decorre da habilidade gerencial em
perceber, analisar e decidir, e transformar problemas em
oportunidades - isso revela a capacidade mais preciosa de
uma gerência eficaz. É vital que se considere duas premissas
básicas: problema é manifestação do passado, a oportunidade
está no futuro desafiante; e a responsabilidade da alta
gerência é olhar pra frente. A partir da realidade
conhecida, assumir o risco, gerenciando-o com
informação/pesquisa e desenvolvimento. A qualidade da
decisão está intimamente condicionada à informação
disponível. A empresa é uma realidade de informação /
decisão visando objetivos/resultados. Um gerente é eficaz
não por sua competência individual, mas como membro de uma
equipe e representante da organização. Antes de tudo, ele é
gerente da empresa. Cada decisão sua envolve a organização
como um todo. Conquanto decisões inadequadas cavam um
abismo, decisões acertadas solidificam o desenvolvimento.
Decidir é um desafio permanente à inteligência e à
capacidade do homem. Identificam seu nível de maturidade,
pois ser adulto significa estar preparado para assumir
responsabilidade. E só quem decide é responsável. Decisão
é exercício de liberdade e, assim, condição à dignidade
humana. Quem não decide é escravo, e a pior escravidão é a
interior. É o espírito bloqueado pela falta de conhecimento,
pela insegurança emocional, por restrições psicológicas e
indecisões. Pela busca do conhecimento e o exercício
sistemático da decisão, através da delegação de autoridade.
Vale, como conclusão, o oportuno pensamento de Volkonski:
"Torne o que é difícil habitual; o que é habitual, fácil; e
o que é fácil, belo". |