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"A Gestão por Competências é a conquista do espaço e da
validação pela organização da importância das pessoas no
cenário organizacional, sem os velhos rótulos paternalistas
e míopes de olhar somente as pessoas. Tudo que fazemos hoje
não difere em conceito do que já praticamos". Essa afirmação
é feita pelo consultor organizacional, Marco Ornelas ao se
referir sobre a relação desse processo e a área de Recursos
Humanos. Numa entrevista concedida com exclusividade ao
RH.COM.BR, Ornelas comenta as vantagens que a Gestão por
Competências pode trazer para as organizações e os
colaboradores, bem como as dificuldades que as organizações
enfrentam ao adotarem essa estratégia. Confira!
RH.COM.BR -
O que podemos compreender por competência?
Marco Ornelas - O primeiro conceito que definiremos
aqui é o de competência, estabelecido por Maria Tereza
Fleury, ou seja, é adquirir, usar, mobilizar, integrar,
desenvolver e transferir conhecimentos, recursos,
habilidades e experiências que agreguem valor à organização
e valor social ao indivíduo. Na busca pela maximização de
resultados, as empresas estão repensando seus modelos de
gestão e conseqüentemente investindo em seu patrimônio e
capital intelectual. O segredo do sucesso e o diferencial
estão nas pessoas. Dessa forma, o grande desafio passa a ser
como buscar e preparar as pessoas que ajudarão a empresa a
atingir os resultados, identificando as competências que vão
garantir a manutenção do sucesso no presente e,
principalmente, no futuro. Com um modelo de Gestão por
Competências, as organizações conseguirão alcançar seus
objetivos através do alinhamento entre: a missão, visão e
valores; a estratégia do negócio e a estratégia do capital
humano.
RH -
Mais do que nunca, as empresas estão trabalhando as
competências dos colaboradores. Esse fator pode ser
considerado um modismo gerencial?
Ornelas - Antes de qualquer coisa, as empresas
precisam definir as necessidades para o amanhã, garantindo o
alinhamento com o plano estratégico. Elas precisam assegurar
a capacidade de identificar o perfil e o montante de suas
competências hoje e os gap's para sobreviverem no futuro.
Fazendo isso, elas automaticamente estarão dizendo aos seus
empregados que competências têm valor para seu negócio e,
conseqüentemente, estarão sinalizando as oportunidades para
que seus colaboradores melhorem suas habilidades e se
desenvolvam. Nessa perspectiva, é difícil imaginar algo
passageiro ou mesmo uma moda gerencial. Para mim, essa
clareza e foco sugerem uma questão de sobrevivência
organizacional.
RH -
Qual a relação entre competência e o capital intelectual de
uma empresa?
Ornelas - Entendemos que as competências são o
conjunto de conhecimentos, habilidades e experiências das
pessoas e o quanto elas adquirem, usam, compartilham esses
conhecimentos. Tudo isso e mais o poder de inovação,
valores, cultura e filosofia da empresa constituem o capital
humano de uma empresa. Já o capital intelectual inclui, além
do capital humano, o capital estrutural de uma empresa, ou
seja: o conjunto de equipamentos, softwares, bancos de
dados, marcas e patentes e clientes. Sendo assim entendemos
que as competências instaladas e colocadas em práticas, ao
mesmo tempo em que organizadas e sistematizadas em sistemas
estruturados, constituem-se no capital intelectual de uma
organização.
RH -
Quais as competências consideradas essenciais, que vêm
despertando o interesse das organizações?
Ornelas - É difícil falarmos de forma generalizada em
competências essenciais para as organizações. São muitos os
aspectos a serem considerados, dos internos às organizações,
como sua cultura, sua estrutura e modelo de gestão, sua
história e desafios. Dos aspectos externos, como a dinâmica
do seu negócio, o mercado, a tecnologia, o ambiente social,
entre outros. Todos esses fatores são determinantes nas
escolhas organizacionais, por sua vez nas competências
essenciais dessa ou de outra organização. Qualquer tentativa
de cópia de um modelo por uma organização, só posso
interpretar como uma grande miopia gerencial. Mesmo assim,
existem algumas posturas e competências essenciais
determinantes pelo cenário que vivemos. Em minha opinião,
são elas: competitividade, que impulsiona melhoria;
curiosidade e descoberta, que impulsionam inovação e
diferenciação; conhecimento, que impulsiona previsibilidade;
e colaboração, que impulsiona prontidão.
RH -Qual
seria a metodologia mais adeqüada para se definir as
competências essenciais?
Ornelas - Não há nenhum segredo e nem metodologia em
particular, quando queremos definir as competências
essenciais de uma organização. Ao meu ver, o grande esforço
deve ser na leitura profunda e na tradução da visão, missão,
valores, estratégias e cultura da empresa, em conhecimentos,
habilidades e experiências, ou seja, competências. O melhor
lugar para se encontrar essas competências são os documentos
organizacionais, suas práticas e estilos de gerir e decidir
na gestão dos negócios e das pessoas. Entrevistas e
conversas informais com líderes da empresa também são fontes
inestimáveis de insights e informações das
competências essenciais. A metodologia compreende uma etapa
de leitura e compreensão dos documentos organizacionais,
assim como uma etapa de conversas e entrevistas com direção,
líderes e amostra de colaboradores. O resultado desses
levantamentos é uma lista de competências essenciais a serem
validadas por todos da empresa.
RH -
O que a adoção da Gestão por Competências significa para a
área de RH?
Ornelas - O que falamos hoje de Gestão por
Competências não é nada mais, nada menos do que Gestão de RH
ou Gestão de Pessoas vista de uma ótica mais ampliada e
sistêmica, porque não dizer integrada. A Gestão por
Competências é a vitória do RH estratégico que tanto
queremos e buscamos realizar em nossas organizações. Não
estamos falando de algo novo e sim integrando idéias,
conceitos e práticas de gestão de pessoas. Para tanto, a
área de RH precisará se integrar de maneira substancial. Num
modelo de Gestão por Competências Integrado não podemos mais
pensar em sub-divisões e sub-áreas em RH. Não podemos pensar
em Recrutamento e Seleção desvinculado e operando
isoladamente das demais áreas de RH. Não podemos compreender
que treinamentos sejam montados desarticulados da
estratégia. Não podemos imaginar as áreas de RH
desarticuladas, desintegradas e operando fechadas em si
mesma. Na minha opinião a Era do RH Departamental e focado
na especialidade técnica está com os dias contados. Chegou a
Era do RH estratégico e integrado.
RH -
Quais as principais dificuldades enfrentadas pelas empresas
que implantam a Gestão por Competências?
Ornelas - Acredito que a maior dificuldade e
resistência que enfrentamos na implantação de um modelo de
Gestão Integrada de Competências estão no próprio RH e no
conjunto de seus profissionais. Transformar o "velho
departamento de pessoal" em RH Estratégico não é tarefa
fácil, mas nem por isso, impossível.
RH -
De que forma esse obstáculo pode ser vencido?
Ornelas - A forma de vencer esse obstáculo está na
criação de espaços de debate sobre esse novo modelo de
gestão - Gestão por Competências, em todos os níveis. Com os
profissionais e líderes de RH, esse debate deve culminar com
a formulação de novas estratégias e estruturas de
funcionamento para a Área de RH. Com as lideranças
organizacionais, o foco deve ser em mostrar e oportunizar os
benefícios que esse modelo integrado trás para a gestão de
pessoas. Com os funcionários e os colaboradores, a ênfase
deve ser o comprometimento e envolvimento de todos com o
processo. Nunca é demais ressaltar que não estamos falando
de nenhum bicho de sete cabeças. Quando bem difundida, a
Gestão por Competências gera muito comprometimento,
entendimento e aceitação.
RH -Qual
o período médio, para se implantar um processo de Gestão por
Competências?
Ornelas - Temos que pensar em Gestão por Competências
como um modelo integrado de Gestão de RH - Gestão de
Pessoas. São vários os fatores a serem considerados pela
empresa que se dispõe a avançar nesse modelo. No entanto,
sugiro uma reflexão sobre alguns aspectos como, por exemplo,
"existe um plano estratégico claro com visão, missão,
valores e estratégias organizacionais?", tamanho da
organização, nível de maturidade gerencial, nível de
maturidade da área de RH, quais sistemas de RH devem ser
re-alinhados e em que ordem e prioridade?", disponibilidade
e prontidão pra mudança, oferta de sistemas informatizados e
integrados de gestão de pessoas. Destacaria apenas que,
nesse momento, o que menos importa é o tempo ou período
médio de implantação. O que conta é o início da caminhada, e
esta precisa ser começada já.
RH -
Em quanto tempo a empresa pode começar a sentir os
benefícios desse processo?
Ornelas - Penso que os benefícios são imediatos. A
cada passo, a cada discussão, reflexão e validação, ganhos
podem ser observados. Vamos analisar uma organização que
nesse momento decida somente dedicar esforços na
identificação e descrição das suas competências essenciais.
Os ganhos com essa etapa "inicial" é grande no que diz
respeito à consciência e alinhamento de todos (diretores,
gestores e colaboradores) das competências essenciais e que
agregam valor ao negócio. No entanto, à medida que esse
modelo vai se espalhando pelos outros sistemas de RH, num
esforço integrado e de desenvolvimento de um modelo de
Gestão de Pessoas, os ganhos sugirão através do
comprometimento dos níveis de direção numa revisão
disciplinada dos talentos de liderança, do direcionamento
das atividades de desenvolvimento dos executivos-chave, da
continuidade da liderança e sustentação aos planos de
carreira, da redução de problemas de transição e prevenção
de promoções prematuras, do alinhamento dos investimentos em
treinamento às metas estratégicas da organização, do
alinhamento dos sistemas de seleção, recompensa e
desenvolvimento gerencial ao processo de renovação de
lideranças, entre muitos outros sub-produtos e resultados de
valor.
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